Hoje a coisa é simples. Você abre o filtro - ou a
garrafinha de água mineral - e mata a sede à vontade. Mas, para nossos
antepassados, água costumava ser um problemão: um pequeno gole podia levar à
morte. Isso porque, no começo dos tempos, os únicos instrumentos que os homens
tinham para determinar se a água estava boa ou não para o consumo eram o olho e
o paladar. E parecia óbvio que água clara e sem sabores estranhos era sinônimo
de água limpa. O problema é que muitos organismos nocivos ao ser humano não mudam
nem a cor nem o gosto da água. E lá se iam alguns de nossos antepassados
morrendo por causa da sede, ou melhor, da falta de sede. Uma solução foi
substituir água por cerveja. Isso mesmo. Há mais ou menos oito mil anos -
quando o homem ainda era nômade (ou seja, vivia vagando pelo mundo) e nem
sempre encontrava boa água para beber - alguém deixou alguns grãos de cevada ao
relento e eles fermentaram naturalmente, por causa do contato com a umidade do
ar. Algum corajoso experimentou o líquido que resultou da experiência acidental
e percebeu que ele não provocava indigestão (afinal, o processo de fermentação
impede a reprodução de bactérias).
Para não ter que passar o resto da história bêbado, o
homem começou cedo a inventar sistemas de filtragem - alguns, aliás, bem
parecidos com os que usamos hoje. Há registros mostrando que, em 2000 a.C., já
se recomendava ferver a água ou fazê-la passar por um filtro de areia. Outras
medidas, no entanto, não eram nada eficazes, como deixar a água no sol ou
colocar um pedaço de ferro quente dentro do recipiente.
Na Grécia Antiga, a recomendação era beber água da
chuva. Parece simples, né? Mas não era, não. Antes de poder molhar a garganta,
os gregos costumavam ferver o líquido. Depois, usavam um pano limpo e encharcavam-no
com a água. E só depois de retorcer o pano é que bebiam o que saísse dele.
Depois de tanto trabalho, aposto que qualquer água era bem-vinda para matar a
sede.
Mas o esforço dos gregos era fichinha perto do que
sofreram os contemporâneos de Francis Bacon. Em 1627, o filósofo achava que era
possível tirar o sal da água do mar fazendo buracos na areia. Pobre de quem
experimentou. Nada dá mais sede do que um golinho de água salgada.
Quando finalmente alguém achava um rio ou nascente
confiável, aparecia outro problema: transportar a água até as casas. Tinha quem
decidisse ir morar perto da água, mas isso também podia significar problemas
(como era difícil a vida de nossos antepassados, não?). Nos períodos de chuva,
os rios podiam transbordar, alagando tudo em volta. A solução foi construir
bombas que levavam água dos rios para poços próximos às vilas e cidades. Assim,
era preciso ir até o poço toda vez que você tivesse sede. E, como todo mundo ia
ao mesmo poço, o lugar se tornava uma espécie de ponto de encontro dos jovens -
normalmente eles, por serem fortes, é que enchiam as vasilhas com água para a
família. Muitos namoros e paqueras começavam ali, entre a subida e descida do
baldinho.
Fonte: SOALHEIRO, Bárbara. Como fazíamos sem... 1 ed. São Paulo: Panda Books, 2006, p. 14-17.
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