Ontem, no complexo do Alemão (RJ), os seres humanos marchavam, fazendo um protesto legítimo pela morte do menino Eduardo de Jesus Ferreira. Um policial - não o mesmo que matou a criança - sacou, então, um spray de pimenta e espirrou gratuitamente na cara dos manifestantes: eram homens, mulheres e crianças. Eram em sua maioria negros. Todos pobres. Enquanto isso, no mesmo instante, bombas de gás lacrimogêneo eram atiradas também contra eles.
As imagens foram exibidas pela TV Globo em uma matéria de pouco mais de um minuto no meio do Jornal Nacional. A mesma TV Globo que fez uma ampla cobertura da marcha do dia 15 de março que parou a Av. Paulista em São Paulo, a Av. Atlântica no Rio, e sei lá mais aonde para protestar contra o Governo Federal e pedir a volta da ditadura. Para mim, uma histeria coletiva. Foram, na ocasião, exibidas na tela da TV outros seres humanos, em sua maioria brancos, louros e (possivelmente) endinheirados posando ao lado de policiais sorridentes. Nunca aquelas pessoas que marcharam pareceram se sentir tão brasileiras.
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| Eduardo de Jesus Ferreira, morto por um policial, no Complexo do Alemão, RJ. |
Foi o policial que engatilhou a arma e atirou contra a cabeça do menino, mas fomos nós que não o preparamos para exercer sua função,, fomos nós que não lhe demos uma educação humanista, fomos nós que demos uma arma em suas mãos, fomos NÓS. Somos tão responsáveis por esta irresponsabilidade que ignoramos para não nos flagelarmos mais.
O que vai acontecer depois de tudo isso? Minha descrença responde que nada. Continuaremos rodando a tela do Facebook, compartilhando notícias falsas e nosso ódio ignorante. A notícia atinge quem sempre atingiria. Para outros tantos, "Deus quis que fosse assim", "antes o favelado do que minha filha".
Duvido que veremos no próximo dia 12, na mesma TV Globo, cartazes pelo menino Jesus, pedindo mais educação ao invés de redução da maioridade, pedindo a reinvenção das instituições Escola, PM etc. O sangue secou no corpo de muita gente. Corre agora um líquido escuro e corrosivo de ódio e dissimulação, de individualismo e arrogância, alimentados por uma ignorância sutil e devastadora.

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