sábado, 22 de outubro de 2016

O outro



Reinaldo desceu apressadamente a escada rolante da estação ao perceber que o metrô se aproximava. Chegou na altura da porta em tempo de ver o trem perder a velocidade. Conforme o vagão chegava na plataforma, Reinaldo já buscava, antes de entrar, através das janelas que passavam, um lugar para se sentar.
Ao entrar, sem titubear, foi para o banco, junto ao vidro, em que não havia ninguém. Não que fosse antissocial - pelo menos não estava sendo naquele dia -, mas é que ele buscava, no momento, um espaço maior para abrir seu longo romance de letras miúdas, o qual já chegava à quatrocentésima quinquagésima sexta página e não queria se incomodar com braços ou pernas e até olhares invasivos no seu espaço, algo que é difícil no metrô. Reinaldo parecia com sorte naquele dia.
Quando se acomodou no banco, feliz de ter um espaço só seu, abriu seu livro e, sem pensar, olhou para frente antes de começar a ler. Foi quando ele se deparou com um outro rapaz, a cerca de uns 5 metros dele, sentado num banco oposto ao seu. O rapaz era um pouco mais jovem. O encontro de olhares deixou Reinaldo sem graça, pois o moço do outro banco, ao ver Reinaldo, o cumprimentou balançando a cabeça e deixando escapar um sorriso como se Reinaldo fosse um velho conhecido seu.
Reinaldo, no entanto, como reação, balançou a cabeça e sorriu, baixando o olhos nas páginas do livro.
Aquele olhar e aquele cumprimento dirigido a ele era de uma pessoa que o conhecia, pensou. Será que era um colega de escola ou da faculdade? Será que era um parente distante? Será que era um vizinho seu que não via há algum tempo? Será que era filho de alguma vizinha de sua mãe? Reinaldo buscava nas caixas de sua memória algum objeto para se dar a conexão, pois na incerteza podia até arriscar que já havia visto aquele rosto comum em algum lugar. Começou a ficar enrubescido, porque, se fosse um conhecido, a etiqueta de bons costumes da sua ética social dizia que ele precisava ao menos falar um “Oi, tudo bem?” ou “Como está?” ou “E o seu... a sua....”. Mas perguntar o quê e como se ele não tinha a mais remota ideia de quem era aquela pessoa?
    Lembrou-se, no entanto, do último encontro em que havia passado por semelhante constrangimento.  Foi em um museu. Estava vendo a Composição 8 do russo Kandinsky, tentando entender o que aquela pizza com um relógio em cima, ao lado de um sol sendo eclipsado por uma lua negra e uma foice no centro do quadro tinham a ver entre si e com aqueles montes de cores e figuras geométricas quando foi surpreendido por um “Oi, Reinaldo, você também por aqui?”. Ao olhar, não reconheceu quem era a moça que o cumprimentava. Muito sem graça, respondeu uma idiotice qualquer. A moça, no entanto, ampliando o constrangimento, perguntou da Mabel, sua cachorrinha. Ele respondeu que a cadela ia bem, mas já ia também velha, e sem ter ideia de como desenvolver um assunto com uma total desconhecida que o conhecia, olhou para o relógio e disse que estava com pressa de terminar de ver a exposição, completando a mentira de que o estavam esperando para um compromisso. Se despediu da estranha que o abraçou de forma calorosa e voltou para o quadro anterior que já havia visto só para fugir da moça que seguiria para o quadro adiante. Para Reinaldo, a exposição acabara ali. Passou a olhar as obras do russo, buscando apenas quem era abstrata moça. Nunca se lembrou quem era ela, mas o caso que sempre o fazia constranger, havia voltado de maneira abrupta com aquele rapaz que o havia cumprimentado.
Ficou ainda mais envergonhado do que antes. Ameaçou levantar a cabeça das páginas cujas letras haviam virado uma massa desforme e ele não conseguia se concentrar em absolutamente nada, pois caçava na memória o rapaz. Suspendeu o olhar em direção a ele. O moço olhava para fora da janela do vagão que se movimentava dentro de um túnel. Reinaldo pode observar os detalhes da fisionomia do jovem e.... continuava sem ter a menor noção de onde o conhecia e, pior, se o conhecia. Chegando em uma nova plataforma, o rapaz, então, subitamente virou para frente e Reinaldo baixou a cabeça de imediato para evitar um novo olhar. Várias pessoas entraram no vagão quando abriu a porta.
Reinaldo respirou aliviado ao perceber que várias pessoas entraram na sua frente, bloqueando a visão com o outro. Parecia que tinha tirado um sapato apertado do seu pé tamanha a sensação de alivio que o inundou.
Alguns minutos depois, passadas algumas plataformas, com saídas e entradas de passageiros, Reinaldo se surpreendeu ao perceber que o rapaz do banco da frente ao seu não estava mais ali. Reinaldo olhou para um lado e para o outro, mas o jovem havia descido em algum momento.
Ainda faltavam as mesmas 178 folhas para Reinaldo acabar o livro.

*             *             *

         Márcio ainda estava distraído quando o vagão do metrô começou a se aproximar da plataforma de uma estação. Estava pensando em Melissa e na frustrada noite anterior quando ela ligou desmarcando o encontro que haviam prometido um ao outro. Já era o segundo naquela semana e talvez o oitavo daquele mês que não acontecia e Melissa dizia que era por causa do emprego de terapeuta ocupacional que exercia e do trabalho de conclusão de curso que necessitava entregar para a pós-graduação que fazia. As sementes das dúvidas já haviam semeado o fértil solo da imaginação de Márcio e ele já se questionava se eram esses mesmos os reais motivos dos desencontros.
        Ao parar na plataforma e abrir a porta, o jovem rapaz viu entrar no vagão um moço meio atabalhoado com um grosso livro na mão que foi direto se sentar em um banco em frente ao seu. A certeza do rapaz em chegar no assento vazio causou inveja em Márcio que queria um pouco daquela determinação em sua vida. Se ele a tivesse, Melissa não havia desmarcado o encontro como fez duas vezes só naquela semana. E se ela tentasse, ele teria respondido exatamente da forma como ficou remoendo em pensamento as palavras que deveria ter dito a ela.
            Perdido em devaneios, o sentimento de inveja foi suspenso quando o rapaz, de frente para ele, olhou em seus olhos. Sem graça com seus pensamentos pecaminosos, cumprimentou-o e sorriu. Se surpreendeu mais ainda quando aquele moço com uma volumosa obra literária aberta em suas mãos o cumprimentou de volta. Será que ele o conhecia? De onde? Como? Por que ele o cumprimentou de volta daquela maneira como se o conhecesse? Constrangido, ao ver que o rapaz atolou a cabeça no livro, Márcio passou a olhá-lo, buscando-o em suas lembranças. Não achou nada, mas veio um pensamento avassalador: e se ambos tivessem que descer na mesma estação? Imagina o constrangimento pelo qual passaria? Márcio era extremamente tímido e evitava qualquer situação de confronto em que perdesse o controle. Aquilo seria demais para também ficar remoendo depois. Melissa dizia que ele precisava se atirar mais na vida. Que vivia muito escondido e desperdiçava as oportunidades. Se fosse ela, com certeza chegaria no moço e perguntaria de onde se conheciam. Ele odiava a namorada quando ela falava as coisas e se comportava de forma tão oposta a ele.
        Márcio buscou alguma paz no escuro túnel pelo qual o metrô passava. Não só naquele momento, mas em outros, ele parecia um vulcão em erupção, mas seus atos e movimentos eram de uma passividade que incomodavam todos os que o conheciam. Poucos se atreviam a falar isso para ele como Melissa fazia, pois era muito introspectivo e não dava essa abertura. A lava do vulcão que esquentava seu interior, no entanto, neste instante, gerava a dúvida do que fazer com aquele rapaz na sua frente. Foi quando ele o olhou de soslaio e reparou que o rapaz o olhava como se o analisasse e abaixou a cabeça rapidamente quando viu que ele, Márcio, virava o rosto decidido a encará-lo. O metrô diminuiu a movimentação, parou numa plataforma e abriu as portas.
         Conforme as pessoas entraram no vagão, Márcio se inspirou na certeza do seu desconhecido, levantou e saiu decidido do metrô. Queria evitar um encontro desagradável ao mesmo tempo que em um ímpeto, decidiu terminar o namoro com Melissa.

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